O hotel não é a viagem (e ainda bem)

Em Orlando, fiquei em hotéis que pareciam verdadeiros parques de diversão. Tinha loja de souvenir, restaurante, quadra, salão de jogos, fliperama e balcão vendendo passeio e aluguel de carro. Tinha de tudo.

E o que eu usei de toda essa estrutura? Quase nada.

Eu estava aqui. Não no fliperama do hotel.

Não estava lá para aproveitar o hotel. Estava lá para aproveitar Orlando.

Boa parte daquilo ainda vinha com custo adicional. Ter tudo à disposição não significa precisar usar tudo, e muito menos que vale a pena pagar por isso. Foi ali que comecei a mudar a pergunta que faço antes de reservar um hotel.

A pergunta que vem antes do hotel

Antes de “quanto custa?” ou “fica perto de quê?”, eu me pergunto: qual é a viagem que eu quero fazer?

Se a ideia é passar os dias dentro de um resort, curtindo piscina, restaurante e programação, o hotel é a atração principal e faz sentido investir nele. Mas se eu vou conhecer uma cidade, caminhar, visitar museus e ver ao vivo lugares que só conhecia de foto, o hotel é só o meu ponto de apoio. E não tem nada de errado nisso.

Gosto de pensar no hotel como um porto seguro. É onde eu tomo um bom banho, deixo minhas coisas em segurança e durmo para enfrentar o dia seguinte. Viajar cansa: acordo cedo, caminho muito, lido com transporte, câmbio, idioma. No fim do dia, uma cama boa e um chuveiro que funcione valem mais do que metade das comodidades que me pareciam indispensáveis na hora da reserva.

Pagar pelo que eu nem vi

Já aprendi isso do jeito mais caro.

Em Miami, paguei taxa de resort por cinco dias e mal aproveitei a praia. Era uma taxa de 10 dólares por dia, que valia o uso de uma cadeira e uma toalha nas areias próximas ao hotel. Também acabei pagando, por engano, por um estacionamento que nunca usei. Duas lições baratas de ler e caras de aprender: o preço anunciado raramente é o preço final.

Cinco dias de taxa de resort. Essa foi a parte da praia que eu aproveitei.

Em compensação, descobri que economizar às vezes é só mudar de endereço. Em Orlando, fiquei mais longe dos parques, mas achei uma hospedagem mais em conta, com cozinha no quarto. A localização tinha suas desvantagens, mas a economia e a praticidade compensavam.

Em Santiago, foi a minha primeira experiência em apart-hotel, na rede RQ. Café da manhã no quarto, pipoca de micro-ondas, sorvete no frigobar, um mercado ali perto. Parece bobagem, mas dá liberdade e ajuda o bolso. (O frigobar, aliás, não gelava, e o sorvete virou uma corrida contra o tempo. Mas isso é história para outro texto.)

Café da manhã no quarto, sem fila e sem buffet.

E o café da manhã, que todo mundo trata como diferencial? Já fiquei em hotel sem ele e em outros em que não consegui aproveitar. Nada disso estragou viagem alguma. Sempre dá para achar uma padaria, um café local ou simplesmente mudar o plano.

Este sorvete ainda vai dar o que falar.

E quando o hotel dá errado?

Dá, e vai dar. Já troquei de quarto quatro vezes em Puerto Varas, com temperatura perto de cinco graus negativos, porque o aquecimento não funcionava e o chuveiro não esquentava. Em Paris, abri a porta do quarto recém-recebido e encontrei outra pessoa dormindo lá dentro. Eu assustei ao encontrar alguém dormindo naquela que seria a minha cama, mas acho que a surpresa foi muito pior para a pessoa que me viu sair correndo de dentro do quarto.

E quando o hotel dá errado?

E a viagem continuou ótima.

Isso não quer dizer aceitar tudo calado. Se o quarto não tem aquecimento no inverno, a gente procura a recepção e pede solução. Paguei por um serviço e tenho direito a recebê-lo. Mas também aprendi a pôr um limite no estresse: resolvo o que dá para resolver, não deixo o problema devorar o passeio e sigo viagem. O tempo de viagem é limitado e também tem valor.

O hotel é um complemento

Viajar é ir atrás de alguma coisa: o sonho de conhecer Paris, a vontade de caminhar por Roma, a curiosidade de explorar os parques de Orlando, ou só o desejo de passar uns dias longe da rotina. Quase sempre, a hospedagem é onde a gente tenta economizar para conseguir pagar o que realmente foi buscar. E está tudo bem, desde que a gente saiba o que está escolhendo e o que está deixando de lado.

Se fui a Roma, é em Roma que está o motivo da viagem. Se fui a Orlando, não é dentro do quarto que vou encontrá-lo.

Minha regra é simples: espere o pior e torça pelo melhor. Você pode pagar caro por um hotel decepcionante ou achar uma pechincha. Pode se surpreender com um quarto modesto ou descobrir que o hotel dos sonhos não era tudo isso.

Porque o hotel também faz parte da viagem.

Mas a viagem é muito maior do que o hotel.

O hotel era só o ponto de apoio. Isso aqui era a viagem.

Sua opinião

Qual foi o hotel que mais pesou (ou menos pesou) na sua viagem? E qual foi o perrengue de hospedagem que você nunca esqueceu? Conta nos comentários. Já adianto: o meu tem gente dormindo no quarto.

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