Bruges: seis horas em uma cidade que parecia saída de outro tempo

Bruges não estava nos meus planos. Ela apareceu num pacote de viagem pela Europa, daqueles em que você sabe o nome das cidades, mas não faz a menor ideia do que vai encontrar.

Era nossa primeira viagem pelo continente. Paris tinha ficado para trás e a Bélgica era a próxima parada, começando por Bruges. Cidade famosa, bonequinha dos viajantes, terra de chocolate de ótima reputação. Para um chocólatra assumido como eu, motivo de sobra para gostar do destino.

Havia apenas um pequeno problema.

Eu saía de Paris com uma lembrança nada charmosa: uma diarreia monstruosa. Isso mesmo. Eu estava prestes a conhecer a cidade do chocolate sem poder confiar no meu próprio organismo.

Seis horas e um relógio que não para

Viajar de ônibus pela Europa funciona assim: você chega, recebe algumas orientações, descobre onde fica o centro histórico, combina a hora de voltar e pronto, o resto é com você. É uma liberdade e tanto, acompanhada de um relógio que não para.

Chegamos por volta das dez da manhã. Às quatro da tarde, o ônibus nos levaria ao hotel Velotel, onde ficaríamos hospedados. Seis horas, sem guia, sem obrigação de ver igreja nenhuma. Começamos a caminhar.

O acesso via Minnewater. 

A entrada foi pela região da Ponte do Amor e do Minnewater: água, pontes, aves, um barquinho lotado de turistas e construções que parecem posicionadas ali para fazer foto. Pelo caminho, um rio esverdeado tinha mais cara de pântano do que de cartão-postal, mas o Minnewater compensava com sobras. Já dava para sentir que a cidade ia render.

Perto dali, um rio nem tão bonito assim.

Bruges vai ganhando cor

Conforme nos aproximávamos do centro, tudo mudou. As ruas ficaram mais cheias, as vitrines passaram a disputar nossa atenção e a cidade começou a cheirar a coisa boa.

Tinha loja de cerveja belga anunciando centenas de rótulos, e a ideia de encontrar mais de 800 num mesmo lugar não parecia exagero. Era um paraíso para colecionador de garrafa: rótulos com padres e santos, outros com gatos, cachorros, papagaios e até jacarés, e alguns que pareciam obras de arte, góticos, barrocos, modernistas.

Algumas lojas oferecem centenas de marcas, tipos e sabores de cervejas.

Em outras vitrines, o chocolate era o protagonista, com a produção acontecendo ali, à vista de todo mundo, como um convite para acompanhar cada etapa antes de provar o resultado. Tinha waffle, tinha pão, e tinha até açougue gigante, desses que você olha e pensa “mas quanta carne”.

Carnes variadas para todos os gostos.

Eu gosto disso. Gosto de caminhar, olhar vitrine, entrar numa loja só porque alguma coisa despertou minha curiosidade. Não preciso de monumento famoso para sentir que estou conhecendo uma cidade.

Mas então chegamos à praça Markt.

E foi ali que Bruges realmente apareceu.

Tenho a lembrança de que o passeio vinha bonito, mas em tons discretos, até atravessarmos uma espécie de portal e tudo ganhar cores vivíssimas. As fachadas históricas, o movimento das pessoas, as carroças levando turistas, os edifícios medievais, o tamanho da praça: parecia uma cena de outra época.

Paris também tem uma história extraordinária, mas Bruges me pegou de outro jeito. Não era só uma cidade antiga. Era como se a Idade Média tivesse deixado marcas tão presentes que ainda organizassem a paisagem ao nosso redor.

Bruges ganha mais cores ao chegar à Praça Markt.

Ali estavam o campanário, as construções históricas e o Palácio Provincial. A poucos passos, a praça Burg guardava a prefeitura e a igreja que abriga a relíquia do Sangue Sagrado. E, no meio de tudo isso, o comércio, os turistas, a vida acontecendo. Bruges não era um cenário montado para nos receber. Era uma cidade viva que aprendeu a conviver com a própria história.

O chocolate, a fé e outras tentações

O chocolate continuava sendo uma questão pessoal. Eu cercado de vitrines, na cidade que tem fama justamente por isso, e com o organismo ameaçando que aquele não era o melhor momento para aventuras gastronômicas.

Em Paris, tínhamos comprado um remédio para segurar a diarreia. Chegou uma hora em que decidi confiar na potência daquele comprimidinho.

Não abusei, mas precisei provar alguns. As trufas e barras gourmet eram fabulosas, com nozes, frutas secas e vários percentuais de cacau, mas o ao leite era majestoso. Fui obrigado, claro.

Um giro pela Praça Markt.

Também visitamos a igreja do Sangue Sagrado, uma tradição religiosa muito conhecida na cidade. O lugar tem regras para preservar a relíquia, incluindo restrições a foto e filmagem.

Eu ando sempre com a câmera pendurada no pescoço. E o intestino, naquele dia, me mandando recados. Subi uma escada numa fila que parecia interminável até chegar ao padre que segurava o relicário, pouco maior que a palma da mão. E, numa dessas situações em que a curiosidade fala mais alto, consegui gravar um vídeo bem pertinho da relíquia, com a câmera em modo vídeo e cara de paisagem.

Eu ali, dividido entre o sagrado e o meu desespero. Passei pela relíquia mais rápido do que a devoção recomenda. O comprimidinho ajudava, mas “livre de preocupações” estava longe de ser a minha situação.

Não é nenhuma superprodução, mas foi uma pequena conquista pessoal. Talvez um enorme pecado também.

O interior da igreja do Sangue Sagrado.

Ainda assim, Bruges estava diante de mim, e eu queria aproveitar cada minuto.

Seis horas e vontade de ficar

Às quatro da tarde, hora de voltar ao ônibus, rumo ao Velotel.

Não entramos em vários monumentos, não subimos ao campanário, não exploramos cada ruazinha. Caminhamos, observamos, entramos onde a curiosidade mandou e deixamos muita coisa para a próxima. É assim nas viagens em pacote: elas te levam a lugares que talvez você nunca tivesse escolhido, mas às vezes também te deixam com a sensação de que a visita terminou cedo demais.

Bruges foi assim. Cheguei sem expectativa nenhuma, porque era só uma etapa de uma viagem muito maior, e saí com a impressão de ter conhecido um lugar especial e com vontade de caminhar mais.

Não vou dizer que Bruges é a cidade mais bonita da Europa, nem quantos dias você deve reservar para ela. Posso dizer apenas que, em poucas horas, ela me surpreendeu. E que valeu a pena, mesmo com todas as limitações daquela visita.

Algumas das opções em doces oferecidas nas vitrines de Bruges.

Só não me peça para eleger o melhor chocolate da cidade. Essa parte da pesquisa ficou seriamente prejudicada.

Aliás, o chocolate mesmo eu fui comprar em Amsterdã, onde os preços eram mais camaradas. Cada cidade com a sua especialidade.

Sua opinião

Qual foi a cidade que te pegou de surpresa numa viagem em que você nem esperava nada? E se você já passou por Bruges, deixa sua dica nos comentários. Talvez a sua experiência seja justamente a que outra pessoa precisava conhecer.

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