Imperdível para quem?
Imperdível
Para quem?
Não vá a Paris.
Não coma isso em Bruxelas.
Não perca seu tempo naquele museu.
Você precisa conhecer esse lugar.
Você não pode deixar de fazer aquele passeio.
E, pelo amor de Deus, não faça aquilo!
Eu não sei exatamente quando aconteceu, mas viajar parece ter deixado de ser uma experiência para virar uma espécie de prova. E, aparentemente, existe sempre alguém disposto a entregar o gabarito.
Hoje você pode encontrar alguém dizendo exatamente o que fazer quando chegar a uma cidade. Onde comer. Onde não comer. Qual rua pegar. Qual atração visitar. Qual atração ignorar. Qual lado do parque percorrer. Qual restaurante é imperdível. E, claro, qual restaurante é uma porcaria. Tudo muito bem explicado. Às vezes até com horário.
“Chegue às 8h17, entre pela porta lateral, vire à esquerda, passe pela segunda sala e, quando chegar ao corredor azul, não entre. É uma perda de tempo.”
Pronto.
Você acaba de receber uma viagem inteira de alguém que nunca viu você na vida. E aí eu fico pensando: imperdível para quem?
Porque eu já estive em lugares em que a principal atração da cidade não significou absolutamente nada para mim. E isso não quer dizer que a atração seja ruim.
Talvez o problema seja justamente esse: estamos confundindo “eu gostei” com “você precisa gostar”.
Eu fui a Puerto Montt. E não comi centolla, o tal caranguejo gigante. Pronto. Já posso ser expulso do turismo chileno.
Puerto Montt é um lugar conhecido, entre outras coisas, pelos frutos do mar. E a centolla é uma estrela por ali.
Só que eu não como peixe. Não como camarão. Não como nada que tenha passado a vida nadando.
Eu como frango.
E, por sinal, comi em Puerto Montt um dos melhores frangos da minha vida.
Agora imagine alguém me perguntando:
“Mas você foi a Puerto Montt e não comeu centolla?”
Não.
E não fiquei triste por causa disso.
Porque eu não viajei para experimentar a viagem que aquela pessoa faria. Eu viajei para experimentar a minha.
É uma diferença pequena na frase. Mas enorme na prática.
Eu gosto de andar. Muito.
Às vezes, quando viajo, parece que eu tenho algum tipo de dívida com a cidade. Preciso andar. Andar mais. Ver mais uma rua. Mais uma praça. Mais um bairro. Mais uma loja. Mais um mercado.
Enquanto isso, pode existir outra pessoa na mesma cidade que quer sentar num bar durante três horas e tomar uma cerveja olhando para o movimento.
E tudo bem.
Eu não sou melhor viajante porque ando mais. E ela não é melhor viajante porque consegue ficar três horas parada.
Lembro de uma situação em Lisboa.
Eu estava naquela correria típica de quem quer aproveitar tudo. Tram, o bonde local. Pastel de Belém. Castelo de São Jorge. Mais uma rua. Mais uma coisa. Mais uma foto.
E havia uma mulher, que me parecia alemã, sentada no mesmo bar. Bebendo cerveja. No mesmo lugar. Todos os dias.
Eu corria pela cidade.
Ela tomava cerveja.
Talvez nós dois estivéssemos fazendo exatamente a viagem que queríamos fazer.
Também já fiz o contrário.
Uma amiga ia para Buenos Aires e me pediu algumas dicas. Eu tinha ido para Buenos Aires.
Então fiz o que qualquer especialista autoproclamado faria.
Escrevi.
Escrevi muito.
Fiz praticamente um roteiro.
Vinte páginas.
Vinte.
Eu tinha informação suficiente para ela passar alguns dias seguindo os meus passos.
Ela odiou.
Não o texto.
A viagem.
Porque o problema é que ela e o marido não queriam fazer a viagem que eu faria.
E eu só percebi isso depois.
Foi uma ótima lição.
Porque, desde então, quando alguém me pergunta o que fazer numa cidade, eu tento lembrar de uma coisa muito simples:
a minha experiência é minha.
A sua será sua.
Informação, para mim, é outra história.
Eu quero saber como funciona o transporte. Quero saber se vai fazer frio. Quero saber se preciso de casaco. Quero saber quanto custa. Quero saber se determinado lugar fecha na segunda-feira. Quero saber como chegar. Quero saber se existe alguma dificuldade que eu deveria conhecer antes de sair de casa.
Isso é informação.
Agora, quando a informação vira uma ordem, alguma coisa começa a ficar estranha.
“Não vá.”
“Não coma.”
“Não faça.”
“Não perca tempo.”
“Isso é imperdível.”
Imperdível para quem?
Eu fui ao Louvre.
Vi a Mona Lisa.
Gostei.
Mas ela é pequena. E a sala fica cheia.
Tem gente que passa por lá, tira uma fotografia e vai embora.
Talvez tenha sido uma experiência maravilhosa para aquela pessoa. Talvez não tenha sido.
Talvez ela tenha passado horas esperando para chegar perto de um quadro porque alguém disse que aquilo era obrigatório.
Eu não faço ideia.
E nem deveria fazer.
Eu não tenho o direito de decidir o que uma pessoa vai sentir diante de um quadro.
Da mesma forma, não tenho o direito de dizer que alguém precisa colocar um cadeado numa ponte de Paris.
Ou que precisa fazer um passeio de barco pelos canais de Amsterdam.
Ou que precisa visitar uma determinada cervejaria.
Aliás, lembro de uma situação em Amsterdam em que um casal estava discutindo com a guia porque queria deixar o passeio de barco de lado para visitar a fábrica local da Heineken.
A guia não gostou.
Para ela, a cervejaria não tinha graça nenhuma.
Para o casal, aparentemente, tinha.
E foram para a Heineken.
E está tudo bem.
A viagem continuou.
Talvez o problema esteja em transformar gosto pessoal em regra universal.
Eu posso amar um lugar.
Você pode odiá-lo.
Você pode querer ir embora depois de duas horas.
Eu posso comer McDonald's numa viagem porque gosto.
Você pode procurar o restaurante mais sofisticado da cidade.
Eu posso passar o dia inteiro andando.
Você pode querer ficar na piscina.
Você pode querer conhecer museu.
Eu posso querer voltar a uma cidade pela décima vez.
Você pode nunca querer voltar.
Nenhum de nós está necessariamente fazendo a viagem errada.
Estamos apenas fazendo viagens diferentes.
E existe outra coisa que nenhum especialista consegue controlar.
A própria viagem.
Você pode montar o roteiro perfeito.
E chover.
Pode chover justamente no dia em que você iria à Torre Eiffel.
Pode chover no dia de Versailles.
Pode chover quando você marcou aquele passeio maravilhoso ao ar livre.
Você pode passar dois dias em Paris com uma caganeira monumental e descobrir que o seu roteiro cuidadosamente planejado vale exatamente... nada.
Eu sei.
Aconteceu comigo.
E não há vídeo no YouTube capaz de resolver isso.
Você pode chegar a um parque em Orlando com uma estratégia perfeita de percurso.
“Comece por aqui, vire ali, vá no sentido contrário, depois faça isso.”
Até que começa a chover.
Todo mundo corre para dentro das lojas.
E, de repente, aquela atração que tinha uma fila gigantesca está vazia.
Você vai fazer o quê?
Pedir autorização ao especialista?
E talvez seja aí que esteja a graça de viajar.
Você pode se informar. Pode se preparar. Pode tomar cuidado.
Mas, depois que sai de casa, alguma coisa sempre escapa.
Ainda bem.
Porque, se tudo pudesse ser previsto, talvez não fosse preciso viajar.
Talvez você vá a Santiago e seja roubado.
Talvez vá a Paris e descubra que a Mona Lisa é menor do que imaginava.
Talvez vá a Amsterdam e prefira a cervejaria aos canais.
Talvez vá a Puerto Montt e passe longe da centolla.
Talvez vá a um lugar que todo mundo considera maravilhoso e pense:
“Tá. E daí?”
E talvez isso seja maravilhoso também.
Porque a viagem finalmente será sua.
Eu tenho lugares que posso até visitar. E tenho lugares que eu adoraria conhecer.
Pode parecer a mesma coisa.
Não é.
Eu poderia passar dois dias no Atacama. Poderia passar dois dias nos Lençóis Maranhenses.
Talvez eu fosse, olhasse, tirasse algumas fotos e dissesse:
“Pronto. Conheci.”
E tudo bem.
Porque talvez aquilo seja suficiente para mim.
Ou talvez não.
Talvez eu descubra que quero voltar.
Eu não sei.
E é justamente essa a questão.
Eu posso contar o que aconteceu comigo.
Posso dizer o que gostei.
Posso contar o que não gostei.
Posso mostrar uma fotografia.
Posso contar uma história.
Posso até dar uma informação que talvez seja útil.
Mas eu não quero decidir o que você vai encontrar.
Eu quero saber o que você encontrou.
Porque a gente tem viajado pela viagem dos outros.
Tem experimentado o prato dos outros.
Tem bebido a bebida dos outros.
Tem escolhido o hotel dos outros.
Tem seguido o roteiro dos outros.
E, às vezes, até deixado de conhecer um lugar porque alguém que esteve lá uma vez disse:
“Não vale a pena.”
Mas vale a pena para quem?
Eu não quero que você viaje como eu.
Eu quero que você vá.
Sua opinião
Mas e você? Já deixou de fazer alguma coisa durante uma viagem porque alguém disse que “não valia a pena”? Ou, ao contrário, já fez algo que todo mundo dizia ser imperdível e descobriu que não era bem assim?
Conta para a gente nos comentários. Afinal, talvez a sua experiência seja justamente aquela que outra pessoa precisava conhecer.
Texto: Ricardo Seripierro.
Imagens: Ricardo Seripierro.
Acompanhe o Viveajantes
Gostou do texto? Acompanhe o Viveajantes também no Facebook e no Instagram e fique de olho nas próximas histórias, viagens e experiências.
Curta e acompanhe #viveajantes no Facebook e siga @viveajantes no Instagram.
Para críticas, sugestões, contribuições ou simplesmente para contar uma história, escreva para viveajantes@gmail.com.
Novo conteúdo todas as semanas.





Comentários
Postar um comentário