Fui roubado em Santiago. E foi tudo bem.
Santiago é o meu queridinho.
Sabe aquele lugar que você conhece e, em algum momento, pensa: “Se eu precisasse escolher outro lugar para morar, seria aqui”?
Foi mais ou menos isso que aconteceu comigo desde a primeira vez que estive no Chile.
Depois daquela primeira viagem, em 2008, voltei. E voltei. E voltei. Retornei ao país quase todos os anos desde então.
Santiago foi ganhando um lugar especial na minha memória.
E justamente por isso, a viagem de 2025 seria diferente.
Dessa vez, sem roteiro
Mais uma vez, optamos por viajar por conta própria. Nada de pacote, excursão ou roteiro engessado.
Foram sete dias. Sem roteiro. Sem obrigação.
Dessa vez, queríamos simplesmente estar em Santiago.
Andar, conhecer bairros, entrar em parques, visitar mercados, shoppings, supermercados...
E, no meu caso, havia uma programação absolutamente indispensável: supermercados.
Eu adoro supermercados em outros países. Gosto de ver os produtos, descobrir coisas diferentes e, vez ou outra, comprar alguma coisa absolutamente inútil só porque nunca tinha visto antes.
Como uma Fanta de pomelo, por exemplo.
A viagem começou muito bem.
Saímos do aeroporto e, em vez de pegar táxi ou Uber, fizemos aquilo que já conhecíamos: ônibus até o terminal e, de lá, metrô até o hotel.
Barato, tranquilo e funcionando muito bem.
Santiago estava mais movimentada do que eu lembrava. A cidade mudou bastante nesses anos.
Chegamos ao hotel por volta das onze da manhã. O check-in só seria às três da tarde.
Deixamos as malas e fomos para a rua.
A ideia era chegar até a Calle Agustinas, próximo ao Palácio do Governo, para trocar o dinheiro que havíamos levado.
Pegamos o metrô.
Cartãozinho novo de transporte, carregado com créditos para viajar algumas vezes de metrô.
Tudo absolutamente normal.
Até deixar de ser.
O problema começa antes de começar
Eu tinha minha carteira no bolso de sempre.
Dentro dela estavam meu RG brasileiro, minha carteira de motorista — não sei até hoje por que estava carregando aquilo — e algumas notas de pesos chilenos que haviam sobrado de viagens anteriores.
Não havia cartões.
Não havia uma quantidade significativa de dinheiro.
Mas havia uma coisa importante.
Meu documento de imigração.
Normalmente viajo com passaporte. Dessa vez, porém, eu não consegui encontrá-lo no meio da minha desorganização habitual e acabei viajando apenas com o RG.
Portanto, aquele documento era importante.
Muito importante.
E, como bom viajante organizado que sou, perdi.
Quer dizer...
Ainda não.
Três estações
Passadas três estações, senti um peso diferente no bolso da carteira.
Olhei para o bolso.
Não olhei para trás.
Vi uma figura desaparecendo no meio das pessoas.
Foi quando entendi.
Levaram minha carteira.
Desci na estação seguinte e procurei a segurança do metrô.
Expliquei o que havia acontecido.
Mandaram que eu voltasse para a estação anterior.
Quando o trem chegou, os seguranças falaram pelo rádio com outros funcionários. O trem parou e entramos nos vagões procurando alguém que pudesse ter levado a carteira.
Nada.
Não encontramos ninguém.
Saímos novamente.
E eu comecei a procurar nos cestos de lixo da rua.
Vai que...
O ladrão provavelmente deve ter ficado bastante decepcionado com o conteúdo da carteira.
Eu, nem tanto.
O problema era o documento de imigração.
Fui até uma delegacia, fiz o boletim de ocorrência e comecei a resolver o problema.
Dois dias depois, fui ao Consulado-Geral do Brasil em Santiago.
Consegui uma Autorização de Retorno ao Brasil, a ARB, que me permitiria deixar o Chile e voltar para casa.
No hotel, o boletim de ocorrência foi suficiente para explicar a situação, já que toda a hospedagem já estava paga.
E o dinheiro que pretendíamos trocar estava com minha acompanhante.
Ou seja: apesar da dor de cabeça, não tínhamos perdido dinheiro, documentos essenciais para permanecer no Chile ou qualquer coisa que nos impedisse de continuar a viagem.
E agora?
Bom...
Por que eu deixaria de aproveitar Santiago por causa disso?
Eu tinha perdido uma carteira e ganhado uma dor de cabeça gigantesca.
Só.
Então voltamos para o hotel, deixamos telefone e outras coisas de valor guardados e seguimos a viagem.
Só que, a partir daquele momento, algumas coisas mudaram.
Alguns bairros que pretendíamos conhecer acabaram ficando de fora.
Por outro lado, começamos a andar por lugares que não estavam no plano original.
Usamos ainda mais o metrô.
Caminhamos mais.
Conhecemos outros bairros.
E descobrimos outras coisas.
Como um Unimarc gigantesco onde, naturalmente, compramos chocolates.
Somos esse tipo de masoquista.
Também comemos muito bem.
Sou um sujeito chato para comer e, basicamente, frango costuma ser uma das poucas carnes que encaro sem pensar muito.
Historicamente, também tenho um pequeno problema com o hábito chileno de colocar abacate em praticamente tudo.
Mas dessa vez encontramos opções sem abacate.
Sanduíches, massas, comida local, lanches...
A viagem continuou.
E talvez essa fosse justamente a ideia desde o começo.
Uma pausa na rotina.
Sete dias para simplesmente andar por Santiago.
Sem obrigação de conhecer aquilo que todo turista precisa conhecer.
Sem uma lista para cumprir.
Se queríamos um parque, parávamos em um parque.
Se queríamos andar pelo centro, íamos para o centro.
Se aparecia alguma coisa interessante no caminho, mudávamos o caminho.
O papelzinho
Só havia uma pequena questão ainda pendente.
A saída do Chile.
Eu tinha a ARB.
Mas será que seria simples assim?
Na minha cabeça, a imigração chilena faria um grande caso daquele papel.
Afinal, eu tinha entrado no país com um documento e estava saindo com outro.
Então decidimos chegar ao aeroporto bem mais cedo que as tradicionais três horas.
Fizemos exatamente o mesmo caminho da chegada.
Metrô até o terminal de ônibus.
Ônibus até o aeroporto.
Tudo barato, simples e funcionando perfeitamente.
Chegamos cedo.
Muito cedo.
Quando chegou a hora de passar pela imigração, entreguei o documento.
O agente olhou.
Leu.
Olhou novamente.
E disse:
— Ok.
Só isso.
Eu quase fiquei decepcionado.
Queria mais atenção ao meu caso.
Depois de toda aquela novela, eu esperava pelo menos uma pergunta, uma expressão de surpresa, alguma coisa.
Nada.
Era só:
— Ok.
E pronto.
O voo estava marcado para as oito da noite.
Mas só foi decolar às cinco da manhã.
A pressa, mais uma vez, estava errada.
Mas pelo menos estávamos com tudo resolvido.
E foi tudo bem
Pensando depois da viagem, uma coisa ficou na minha cabeça.
Eu não fui a Santiago em 2025 para conhecer o Palácio de La Moneda.
Não fui para visitar uma vinícola.
Não fui para subir a montanha.
Não fui para cumprir uma lista de atrações.
Fui simplesmente para estar em Santiago.
E, no fim, justamente porque minha viagem saiu do roteiro, conheci lugares que provavelmente não conheceria se tudo tivesse acontecido como planejado.
O roubo foi uma porcaria.
Não tem outro nome.
Foi uma comida de bola minha, uma distração, um momento em que eu não prestei atenção.
Mas não estragou a viagem.
Pelo contrário.
Ficou uma espécie de orgulho por ter conseguido me virar.
Talvez tenha servido também para virar uma chavinha na minha cabeça.
Se tiver que dar certo, tudo bem.
Eu me preocupo quando precisar.
Não sei se acredito muito nessa coisa de que as coisas acontecem por alguma razão.
Às vezes a gente precisa acreditar.
Às vezes simplesmente acontece.
Santiago continuou sendo Santiago.
Meu queridinho.
Fui roubado em Santiago.
E, ainda assim, voltei para casa querendo voltar.
E isso, para mim, diz muito mais sobre a cidade do que qualquer lista de atrações poderia dizer.
Na chegada ao Brasil, ainda ouvi do funcionário da imigração:
— Ah, saiu do Brasil para ser roubado lá?
É.
Não deixa de ser uma maneira de terminar a viagem. 😂
Sua opinião
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Texto by Ricardo Seripierro.
Imagens by Ricardo Seripierro.
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