E por que não Valparaíso?
Existe uma maneira bastante conhecida de conhecer Valparaíso.
Você está em Santiago, pega um
ônibus, atravessa uma estrada muito interessante, passa por plantações de
amêndoas, azeitonas e outras culturas e, algumas horas depois, chega ao
litoral.
A partir daí, faz o passeio.
Valparaíso e Viña del Mar.
Duas cidades que costumam
aparecer juntas no roteiro.
Visita o relógio de flores. Vê
um pouco do mar. Dá uma espiada nos ascensores e funiculares. Talvez dê sorte
de ver os leões-marinhos, bem de longe. Come em algum restaurante bacanudo,
muito provavelmente em Viña del Mar, e... é isso.
Depois, volta para Santiago.
É um daqueles passeios que
entram naturalmente no roteiro de quem visita o Chile.
E eu já tinha feito isso.
Mais de uma vez.
Até que, em algum momento,
apareceu uma pergunta bastante simples:
E por que não
Valparaíso?
Não como passeio.
Como destino.
A ideia começou a fazer sentido
porque o Chile tem uma característica que eu acho fantástica: você consegue
experimentar coisas muito diferentes em distâncias relativamente pequenas.
Cidade grande.
Montanha.
Neve.
Vinícolas.
Praia.
Tudo ali, de alguma maneira,
muito próximo.
E Valparaíso tinha uma coisa
que começou a me chamar atenção.
História.
Arquitetura.
Pablo Neruda.
As ladeiras.
O porto.
As cores.
E, sim, a praia.
Só que uma praia bastante
diferente daquelas que eu conhecia no Brasil.
Então decidimos ficar.
Sem roteiro.
A ideia era simples: estar em
Valparaíso e conhecer Valparaíso.
E foi aí que a cidade começou a
nos surpreender.
O bate e volta
Eu sou um sujeito muito
acostumado a fazer bate e volta.
Faço isso em Santos, em Amparo,
em Águas de Lindóia, em Campos do Jordão.
Pego o carro num sábado ou num
dia qualquer, vou até uma cidade, dou uma volta, como alguma coisa gostosa e
volto para casa.
Sem compromisso.
Valparaíso já tinha sido isso
para mim.
Um lugar para passar algumas
horas.
Só que, dessa vez, a cidade
parecia pedir um pouco mais.
E nós resolvemos ouvir.
Chegamos de táxi, saindo de
Santiago, e logo de cara tivemos que encarar algumas ruazinhas e vielas que já
davam outra cara ao lugar.
Não parecia uma cidade de praia
brasileira.
Não parecia Santos.
Não parecia Praia Grande.
Era outra coisa.
E, antes mesmo de conhecer
qualquer atração, já dava para perceber que as ladeiras teriam um papel
importante naquela viagem.
Muito importante.
São só quinze minutinhos
Escolhemos um hotel que ajudou
muito nessa descoberta.
O Hotel Gervasoni ocupa um
casarão histórico e tem uma localização fantástica.
Da janela do quarto, era
possível enxergar o mar, uma parte do porto, a cidade e, do outro lado, Viña
del Mar.
Parecia que o hotel estava
pendurado sobre Valparaíso.
E havia uma coisa curiosa:
parecia que só nós estávamos hospedados ali.
O lugar era silencioso,
tranquilo.
Na primeira noite, deixamos a
janela aberta.
A lua estava sobre o mar.
A cidade iluminada.
E eu fiquei olhando aquilo por
um bom tempo.
Não dormi muito naquela noite.
Não porque houvesse qualquer
problema.
Muito pelo contrário.
Eu simplesmente não queria fechar
a janela.
Aquela vista me ganhou.
O café da manhã, por outro
lado, não me ganhou tanto.
Era aquele tipo de café da
manhã mais “natureba”, com grãos, iogurte, pão multigrãos e outras coisas que,
para mim, têm mais cara de castigo do que de primeira refeição do dia.
Mas Valparaíso tinha uma
maneira bastante eficiente de compensar isso.
Os almoços.
E os jantares.
Mas antes de me apaixonar
completamente pela cidade, ainda precisei enfrentar uma experiência que talvez
seja a melhor tradução das ladeiras de Valparaíso.
A casa de Pablo Neruda.
Nós queríamos economizar.
No mapa, a caminhada até o
museu parecia ter uns quinze minutos.
Quinze.
Minha namorada olhou para o
celular e disse algo como:
“São só quinze minutinhos.”
Eu queria pegar um táxi.
Tínhamos algumas sacolas de
compras.
Ela tinha um mapa.
Eu tinha experiência de vida.
Ela tinha quinze minutos.
E lá fomos nós.
Subindo.
Subindo.
Subindo.
Passando ônibus.
Passando táxis.
Um calor desgraçado.
Eu carregando as sacolas e
tentando entender por que alguém tinha decidido construir uma cidade inteira em
cima de uma escada.
Aqueles quinze minutos se
transformaram em quase duas horas.
Quando finalmente chegamos,
estávamos exaustos.
O museu estava fechando.
O segurança ainda nos deixou
entrar na área comum para tirar algumas fotos e admirar a vista.
E a vista era realmente
fantástica.
A casa parecia ter muita coisa
interessante.
Mas nós ficamos do lado de
fora.
Naquele momento, mesmo que
estivesse aberta, acho que eu teria colocado fogo na casa.
A cidade começa a aparecer
A verdade é que eu cheguei a
Valparaíso com um pé atrás.
Não sou exatamente um fã de
cidades litorâneas.
Mas gosto de explorar.
E Valparaíso foi me dando
motivos para mudar de opinião.
A cada saída do hotel aparecia
alguma coisa.
Árvores.
Flores.
Ruas.
Cores.
Pinturas nas fachadas.
Prédios históricos.
O mar.
Um céu azul.
Um mirante.
Um restaurante.
A cidade parecia ganhar um
ponto novo a cada exploração.
E talvez essa seja uma das
melhores coisas de ficar alguns dias em um lugar.
Você deixa de conhecer apenas
os pontos que estavam no roteiro e começa a conhecer a cidade.
O porto, por exemplo, é um daqueles
lugares que merecem mais tempo.
Existe uma feirinha de
artesanato, que não é exatamente imperdível, mas garante alguns souvenirs.
Há construções históricas.
Há passeios de barco.
E, com sorte, dá para passar
bem perto dos leões-marinhos.
Também há o Palácio Baburizza,
que além de interessante é um mirante espetacular.
E o Paseo Gervasoni, outro
daqueles lugares em que você pode simplesmente sentar, olhar a cidade e deixar
algumas horas passarem.
E olha que eu nem sou muito de
ficar sentado.
Mas ali eu fiquei.
Talvez seja justamente aí que
Valparaíso tenha me ensinado alguma coisa.
A cidade oferece uma dose de
natureza sem que você precise estar mergulhado na natureza.
Você tem o mar, as árvores, os
parques, os mirantes, os animais, o céu.
Mas continua cercado por ruas,
restaurantes, hotéis, lojas e pela vida de uma cidade.
As ladeiras
É impossível falar de
Valparaíso sem falar delas.
A cidade parece convidar você a
caminhar.
O problema é que ela não parece
exatamente preocupada com a sua condição física.
Você olha no mapa e pensa:
“É logo ali.”
Não é.
Você pensa:
“Dá para ir a pé.”
Dá.
Mas talvez você se arrependa.
A parte baixa da cidade é ótima
para caminhar.
O problema começa quando você
decide explorar os bairros mais altos.
Ou voltar para o hotel.
Aí você descobre que Valparaíso
tem um conceito próprio de atividade física.
Não à toa, os moradores locais
costumam comentar que as mulheres da cidade têm as pernas mais bonitas do
mundo.
Se eu passasse quarenta dias
ali, provavelmente emagreceria uns dez quilos.
E talvez ganhasse outros dez
comendo.
Porque uma coisa compensa a
outra.
Valparaíso tem restaurantes
muito bons.
Opções gastronômicas de
primeira linha.
E isso também faz parte da
experiência.
Você pode passar boa parte do dia
subindo e descendo ladeiras e, algumas horas depois, sentar diante de uma
comida excelente.
É uma cidade cruel.
Mas generosa.
Valparaíso além da praia
Talvez essa seja a parte mais
curiosa.
Porque você pensa em uma cidade
litorânea e imagina que a praia seja o centro de tudo.
Em Valparaíso, não é.
A cidade é muito maior do que a
praia.
Há história, arquitetura, arte,
porto, parques, mirantes, museus e bairros inteiros para descobrir.
E existe ainda uma
característica que eu acho maluca no Chile.
Você está em uma cidade grande
e, ao mesmo tempo, relativamente perto da Cordilheira.
Você tem neve.
Tem montanha.
Tem vinícola.
E tem mar.
É uma combinação difícil de
explicar.
Em Valparaíso, isso fica ainda
mais evidente.
Você pode estar perto da praia
e usar o metrô.
Sim.
Metrô na praia.
É uma maluquice.
E funciona.
O metrô que liga Valparaíso a
Viña del Mar é uma ótima maneira de conhecer as duas cidades sem precisar ficar
dependente de carro.
E existem ainda os ascensores,
que fazem parte da própria personalidade da cidade.
Em vez de simplesmente vencer
uma ladeira, você pode subir por um daqueles equipamentos que parecem ter sido
inventados justamente para lembrar que Valparaíso foi construída em lugares
onde ninguém deveria ter decidido construir uma cidade.
Viña del Mar, aliás, é outra
história.
É mais moderna.
Valparaíso é mais histórica.
E talvez essa diferença tenha
sido justamente o motivo de termos escolhido ficar onde ficamos.
Queríamos explorar.
Queríamos as vielas.
As ladeiras.
Os prédios antigos.
Os mirantes.
A cidade que parecia ter sido
construída para ser descoberta aos poucos.
Viña del Mar também está ali
Viña del Mar costuma aparecer
no mesmo pacote.
E não é por acaso.
A cidade tem coisas muito
legais para conhecer além da famosa praça do relógio de flores e da orla.
O Parque Quinta Vergara é um
ótimo lugar para andar.
Ali está o Museu e o Palácio
Vergara.
Há igrejas interessantes nos
arredores.
E existe uma região que gostei
bastante, no Barrio Poniente, especialmente na Calle 6 Norte e na Avenida San
Martín, com restaurantes e lojas.
Eu gosto muito da Casaideas,
por exemplo.
É uma loja de artigos para
casa, decoração e algumas coisas absolutamente desnecessárias que, por algum
motivo, parecem sempre muito necessárias quando você está viajando.
É outra forma de conhecer uma
cidade.
Nem tudo precisa ser monumento.
Às vezes você entra numa loja
porque achou curioso.
E pronto.
Já faz parte da viagem.
Nem tudo são flores
Valparaíso também tem um lado
que não combinou tanto conosco.
A cidade tem uma pegada
bastante jovem.
Muitos hostels.
Airbnbs.
Restaurantes naturais.
Baladas.
Bares.
E algumas opções voltadas a um
público mais jovem e mais alternativo.
Há também uma presença bastante
evidente de estabelecimentos ligados ao consumo de maconha.
Nada disso é necessariamente um
problema.
Só não era exatamente a nossa
praia.
E isso também faz parte de
conhecer uma cidade.
Você não precisa gostar de
tudo.
A vida noturna também não era
exatamente o que procurávamos.
Para quem gosta de bares e
baladas, existe bastante coisa.
Para nós, não.
E existe outra característica
curiosa, pelo menos na nossa experiência.
Valparaíso parecia ter um toque
de recolher natural.
Depois das oito da noite, muita
coisa começava a fechar.
Nem os shoppings escapavam.
Para alguém como eu, que gosta
de andar até a última hora, isso era um pouco estranho.
Mas talvez faça parte do ritmo
da cidade.
A praia que pede um mergulho
Eu deveria ter entrado no mar.
Essa é uma das poucas coisas de
que realmente me arrependo.
Porque existe alguma coisa
muito curiosa em chegar a uma praia e encontrar pessoas de agasalho indo nadar.
No Brasil, paulista é
constantemente zoado por ir para a praia de calça.
Em Valparaíso, encontrei minha
vingança.
Gente chegando de moletom para entrar no mar.
E eu pensei:
“Agora vocês entendem.”
kkkkkk.
O mar é lindo em qualquer
lugar.
Pode parecer uma frase óbvia,
mas é verdade.
E ali não é diferente.
Você tem o mar, a praia, o céu,
a cidade ao fundo.
Só que tudo isso acontece em um
lugar que, para nós brasileiros, parece estar no lugar errado.
Praia no Chile?
Pois é.
Praia no Chile.
E eu não mergulhei.
Até hoje não sei por quê.
Quem passa, perde
Talvez seja essa a principal
conclusão que tirei de Valparaíso.
A cidade não me parece feita
para ser conhecida em algumas horas.
E isso não significa que um
bate e volta seja inútil.
Você vai conhecer alguma coisa.
Vai ver o porto.
Vai passar por Viña del Mar.
Vai conhecer alguns dos lugares mais conhecidos.
Vai tirar fotos.
E voltar para Santiago.
Mas você não vai conhecer a
cidade.
Porque conhecer Valparaíso
exige tempo.
Exige caminhar.
Exige subir.
Exige parar.
Exige entrar numa rua que não
estava no roteiro.
Exige sentar num mirante.
Exige olhar para o mar.
Exige deixar a cidade aparecer.
E talvez seja por isso que eu
tenha gostado tanto.
Nós não estávamos ali para
cumprir uma lista.
Éramos nós e a cidade.
Sem roteiro.
Sem pressa.
Ou, pelo menos, tentando não
ter pressa.
E isso permitiu que Valparaíso
fosse se revelando.
À noite, por exemplo, nós
praticamente não assistíamos televisão.
Deixávamos a janela aberta.
Olhávamos o mar.
A lua.
As luzes da cidade.
E aquilo já era suficiente.
E por que não Valparaíso?
Quando decidimos ficar, até nos
questionaram.
Quando fechamos a viagem, houve
quem perguntasse:
“Mas vocês não vão para as
vinícolas?”
Não.
“E não vão fazer isso?”
Não.
“Mas por quê?”
Porque, em algum momento, nós
simplesmente pensamos:
E por que não
Valparaíso?
E ainda bem que pensamos.
Porque eu descobri uma cidade
que não esperava encontrar.
Uma cidade histórica, colorida,
artística, cheia de vida e cheia de ladeiras.
Uma cidade que pode exigir
bastante das pernas, mas também oferece bons restaurantes, bons hotéis,
transporte eficiente, mar, parques, mirantes e uma quantidade enorme de coisas
para descobrir.
Uma cidade que parece feita
para quem tem tempo.
E que talvez mereça justamente
aquilo que eu tenho dificuldade de fazer:
calma.
Talvez Valparaíso seja um lugar
para tomar um sorvete perto do mar.
Sentar num mirante.
Fazer uma refeição sem pressa.
Andar sem necessariamente ter
para onde ir.
Ver o pôr do sol.
Ou o nascer do sol.
Ou simplesmente abrir a janela
do quarto e descobrir que o mar continua ali.
Eu voltaria.
E, se voltasse, talvez tentasse
fazer diferente.
Talvez andasse menos.
Talvez parasse mais.
Talvez finalmente entrasse no
mar.
Mas provavelmente continuaria
subindo as ladeiras a pé.
Porque eu não sou muito normal.
kkkkkk.
E talvez essa seja a melhor
maneira de resumir Valparaíso:
ela não é uma cidade
para você passar por ela.
É uma cidade para você ficar.
E descobrir.
Do seu jeito.
Sua opinião
Você já passou
por um lugar pensando que algumas horas seriam suficientes e acabou descobrindo
que ele merecia muito mais tempo?
Ou já fez
justamente o contrário e percebeu que ficar mais tempo não faria diferença?
Conta
para a gente nos comentários.
Afinal, talvez a sua experiência seja justamente aquela que outra pessoa
precisava conhecer.
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